ELE ESCOLHEU O CRAVO.
ELE
ESCOLHEU O CRAVO.
Ele
pousou a nave bem longe do estabulo e da manjedoura, a regra básica e monótona
era a de que um viajante vindo do futuro não poderia alterar a linha temporal
na qual estivesse ingressando, ainda mais no evento tão significativo como
aquele, consequências seriam catastróficas, já era um privilegio incrível ser do futuro, ele
estava desfrutando disso agora, imagine voltar pra casa e contar pra esposa e
pras filhas que ele presenciara o nascimento do menino Jesus !
A
cada incursão que fazia pelo tempo em nome da federação galática a saudade de
casa aumentava mais e de certa forma em cada retorno ter sempre uma história
pra contar compensava a ausência, suas filhas já tinham ouvido histórias
incríveis sobre os dinossauros ! a se pudesse levar um souvenir dessa viagem !
uma palha da manjedoura, uma fotografia, mas não podia nunca podia, nem dos
dinossauros rex ele pode, as civilizações do futuro que começaram a viajar no
tempo valorizavam a contação de história, todo militar que viajava no tempo
deveria fazer seu relato pro escrito para seus superiores e pra seus familiares
que moravam na base com eles.
Ele
esperou a estrela brilhar no céu, ele esperou os pastores e os reis magos
chegarem, quando achou que já tinha visto o suficiente com seus óculos de longo
alcance decidiu que já era hora de voltar, não era digno de interferir chegando
mais perto daquele nascimento, tinha a visão embasada pelas lagrimas mesmo
usando binoculo de longo alcance pra ser a testemunha ocular.
Ocultada
pela escuridão da noite do oriente médio e por uma montanha de feno a nave
emitiu um estalo estranho quando foi acionada girou na velocidade da luz, deixando pra sempre aquela linha temporal do
passado.
Apesar
do susto inicial ele teve a sensação de esta viajando de volta pra casa, e isso
era a melhor sensação do mundo ! O ruido voltou, estalos na nave por toda
parte, alguma coisa estava errada, o túnel do tempo estava instável liberando
carga de energia no casco da nave, o experiente piloto fazia de tudo pra manter
o controle do manje, a pressão da força G no seu corpo era insuportável, a nave
fazia uma aceleração vertiginosa pressionando seu corpo contra o assento em
breve ficaria inconsciente...
Ele
não sabia precisar por quanto tempo ficou inconsciente, foi sentindo uma
mistura de terror e alivio, o veículo parecia esta inteiro em sua maior parte,
os painéis foram reiniciados lentamente, se encheu de esperança novamente, a
possibilidade de voltar pra casa era grande! olhou em um dos terminais uma
suspeita que seus olhos ascenderam quando olhou pela janela da nave, mas não
pode ser...
Um
princípio de náusea veio perante a revelação e ele vomitou no piso de metal
frio da na nave, mas aquele computador do futuro não poderia mentir.
Localização
atual da nave: JERUSALÉM
Quando
abriu o capô da nave se mandou a todos
os diabos pelas aulas de mecânica que tinha faltado, uma peça de motor havia
quebrado não se sabe como, se por alguma radiação cósmica da estrela que
brilhou no céu naquela noite, mas isso agora era conjecturas e só isso não
bastava pra ele conseguir ver sua família novamente. A peça havia sido exposta
a um nível de calor extremo e tinha se contorcido de um jeito estranho, talvez
não conseguisse ser removida ele teria que fazer uma gambiara ali precisava
improvisar uma pequena fundição dentro da nave mas pra isso precisava de
algumas ligas metálicas pra fazer sua alquimia funcionar e isso significava
trabalho, significava uma lista de consequências dignas de um viajante do tempo, aquilo queria
dizer fome, sede, se infiltrar na cidade santa, usando roupas da época com
sorte e apesar da tecnologia da época ser muito atrasada ele compensaria com os
equipamentos que estavam na nave pra fabricar sua peça e recomeçar a viagem
novamente.
Enquanto
subia pra Jerusalém foi ficando cada vez mais confuso tinha deixado seu
uniforme verdadeiro na nave se vestiu com trapos abandonados que os pastores
tinham deixados pelo campo, outra suspeita nasceu dentro dele, e se ele estive
preso em um loop temporal ? preso exatamente
no dia que o menino Jesus nasceu ? uma ironia do tamanho do universo
aquele acontecimento que ele mais sonhou em visitar se tornaria sua prisão pra
sempre impedindo dele voltar pro seu planeta natal.
Conforme
se aproximava do portão principal da cidade foi cruzando com os habitantes
daquela linha temporal, mendigos, peregrinos soldados e prisioneiros, muitos
deles executados e crucificados ao longo do caminho, o ar ficou podre e cheio
de moscas alguns cadáveres já deviam estar ali a vários dias, outros eram recentes,
o ar cheirava a morte.
Evitou
as ruas de maior movimento e começou a se esgueirar pelos becos e vielas da
cidade santa, recolhendo moedas perdidas, pedaços de metal, espadas quebradas
tudo que ele pudesse usar pra fabricar a
peça, de repente a cidade que já estava
em polvorosa pareceu convulsionar parecia que ia explodir no intestino da rua
principal a cidade era um gigante e o gigante urrava de dor, outra procissão de
soldados entrou na cidade uns a cavalos outros a pé, no meio da força militar
iam três prisioneiros conectados por cordas amarradas pelos tornozelos eles
levavam pedaços de madeiro nos ombros, o viajante do tempo usou o binóculo
ocultado na túnica velha, como um vampiro que sente a luz do sol ele recuou da
distancia que dava acesso ao cortejo e voltou pra escuridão do beco, um soco
tinha atingido seu estomago, um nocaute de dois mil anos! A náusea voltou, vomitou novamente, algumas
prostitutas que estavam na outra extremidade do beco o escorraçaram, saia daqui
seu bêbado, assim não vamos conseguir nada hoje ! jogaram frutas e pedras nele,
o empurraram pro meio da multidão e ele caiu com o rosto no por da estrada.
A
ficha dele tinha caído agora, não tinha voltado pra presenciar o nascimento de
jesus mais uma vez, ele conhecia o inicio e o fim daquela história, era o dia
da crucificação !
O tumulto ao redor dos soldados só aumentava e
por um momento ficaram impossibilitados de caminharem também, as pessoas
jogavam vezes das janelas, um dos prisioneiros muito ferido caiu causando um
efeito dominó e derrubando os outros dois.
Levantem
o Nazareno. Uma voz firme falou
__
ele perdeu já muito sangue se ele morrer aqui estamos encrencados precisamos
chegar ao gólgota com ele vivo
__
Ei você
O
viajante percebeu que o haviam notado, outros soldados secundários o ergueram
pra ele poder responder ao oficial.
__
Ajude o do meio a levar sua cruz.
E
assim seguiram viagem.
Quando
chegaram ao pês do gólgota começaram a conectar as peças de madeira que os
prisioneiros haviam trazido com as estacas que já estavam conectadas no chão a
espera da execução.
Depois
de pregarem os outros dois condenados, chegou a vez do nazareno. Ele
acompanhava tudo meio hipnotizado embriagado pela tristeza, e como ainda rondava
por ali e pela primeira vez tentando mudar a historia e impedir a crucificação
pela culpa que sentia, os soldados o notaram de novo, recebeu um chute nas
costelas e rolou ladeira a baixo.
__Sai
daqui seu nojento, voce não é mas necessário.
Alguns
soldados riram do chute do outro, ou do tombo dele
__Quem
era ? alguém perguntou.
Só
um camponês que voltava do campo, deve ter se embriagado na casa de alguma
prostituta
Mesmo
esgotado ele ia insistir mais uma vez em chegar perto da Cruz de Cristo mesmo
que fosse rastejando
De
repente um principio de confusão no pé da cruz
__
Porcaria ! o prego não entrou totalmente, emperrou
__
Não perca tempo com isso use outro, vamos acabar logo com isso, a pascoa desses
fanáticos se aproxima !
O
cravo foi descartado rolou ladeira abaixo tilitando nos pedregulhos como se
fosse uma moeda e caiu aos pés do mendigo, ele ficou paralisado de joelhos
segurando com as duas mãos aquele cravo torto e rejeitado, todo sujo de sangue,
o céu foi escurecendo pouco a pouco e uma chuva triste começou a cair.
Ali
no fundo do poço do tempo sua mente se iluminou e ele olhou pro céu, mas foi
uma olhada rápida havia um trabalho a ser feito, pouco a pouco foi descendo a
montanha lentamente, dessa vez iria levar algo pra casa de uma de suas viajens
e uma historia, a maior história da humanidade jamais contada mas se
despendesse dele essa historia iria se espalhar entre os povos das estrelas e
dos mundos distantes.
Ele
não sabe como encontrou forças pra fazer o caminho de volta pro esconderijo da
nave na zona rural de Jerusalém, sentiu vergonha de se comportar como um ladrão
pelas ruas da cidade, as pessoas só se ocupavam daquele acontecimento público,
o espetáculo sangrento da crucificação, ele entrava na casas e roubava pão, precisava de energia pra
completar o percurso do mapa mental que levava para seu veículo, com algumas
moedas que encontrou comprou vinho, sabe-se lá como encontrou aquele vendedor,
bebeu um trago e uma verdade estranha começou a brotar dentro dele, o homem que
o atendeu na taverna tentou puxar assunto, se sentia entediado com a cidade
vazia, cheia de lixo e silencio, até o movimento nos prostibulos havia
minguado.
__
você presenciou a crucificação ? Eu não posso ir sabe. apontou para um par de
moletas em um canto.
O viajante olhou pra ele com um olhar vazio,
olhava não para o taverneiro, mas para o infinito do espaço, suas palavras
saíram primeiro baixinho: __ Ele morreu por mim !
Depois
não conseguiu mais se controlar e começou a correr pelas ruas da cidade, suas
palavras saindo em torrente e volume alto: ELE MORREU POR MIM, ELE MORREU POR
MIM...
O
taverneiro chamou a esposa que preparava um pão em outro cômodo da taverna.
__
Quem era aquele estranho?
__
Mas um lunático produzido pela cidade santa...
Dentro
da nave ele rabiscou na prancheta de desenho a intuição que experimentara ao pés
da cruz e pode conectar a peça antiga da nave com a curva do prego que os
soldados romanos rejeitaram na hora da crucificação do nazareno, o holograma
virtual produziu em imagem 3D uma peça perfeita.
Horas
depois a máquina-nave iniciou sua ignição e dessa vez seu destino era sua casa,
e mais do que nunca assim como a família que ele visitou na origem do natal,
ele sabia que daqui pra frente sua família era Sagrada. FELIZ NATAL!
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