A INDIFERENÇA QUE MATA (ENSAIO)

 


A INDIFERENÇA QUE MATA ( ENSAIO)

A maneira como reagimos a um episódio de violência gratuita como no caso do cão orelha que teve um prego inserido em seu crânio por um grupo de adolescentes e depois teve que ser sacrificado, diz muito sobre o tipo de sociedade que somos ou que tipo de mundo estamos tentando construir enquanto espécie humana.

Se não pararmos pra refletir (coisa rara hoje em dia) vamos cair naquilo que Hannah Arendt definiu como a banalidade do mal, quando praticas extremamente violentas se inserem em nosso cotidiano e se tornam tão corriqueiras que não recebem nenhum tipo de protesto.

Penso que pra combater isso, uma grande barreira precisa ser vencida, que a necessidade de nós colocarmos no lugar dos outros, a empatia, precisamos ter empatia pela vida como um todo, não só por outros seres humanos, mas precisamos desenvolver respeito por plantas animais e etc...

Ainda não evoluímos espiritualmente enquanto espécie para fincar profundo em nosso ser a noção que toda vida é sagrada e estamos todos interconectados nesse vasto cosmos circundante (pálido ponto azul)

Analisar, ainda que de maneira rudimentar um ato de violência gratuita é perceber que podemos cavar mais fundo como a inscrição encontrada na cidade de pompeia sugere e ver que isso é só a ponta do iceberg, e enquanto ele se move a deriva você começa a ouvir a trilha sonora de fundo: enquanto os homens exercem seus podres poderes morrer e matar de fome se tornam gestos naturais.

É revoltante não só o ato de tortura em si contra o caramelo, mas também os eventos que vieram depois, com o poder aquisitivo falando mais alto do que as leis desse país, pois os adolescentes envolvidos receberam como prêmio de consolação uma viagem pra Disney e testemunhas de acusação passaram a serem coagidas pelas famílias dos agressores, crescendo a suspeita da certeza de impunidade já que na família desses agressores existem vários juízes.

Embora não devamos abraçar nenhuma doutrina de forma radical seja ela econômica, religiosa ou política é impossível não olhar para esse caso com uma certa ótica marxista.

A sociedade brasileira ainda sofre muito com isso, como se fosse um estigma, a posição social da pessoa e seu poderio econômico e social sendo usado como uma balança macabra na hora de decidir pela inocência ou pela culpa, isso sem se falar na cor da pele, pois se fosse um bando de adolescentes negros, moradores de favela a reação a esse caso seria diferente, como acontece na maioria das vezes.

A cena de uma criatura indefesa imobilizada e sendo torturada e um prego sendo inserido pouco a pouco no seu crânio é ´pra causar náusea em todos nós e não nos deixar dormir a noite. Como disse Luther king o problema não é o barulho dos maus, mas o silencio dos bons. (grifos nossos)

Que nos possamos fazer atos de bondade em nosso cotidiano, gestos de empatia gratuitos com pessoas, plantas e animais, com a natureza em nossa volta. Que gestos de bondade se tornem tão banais que deixem ser novidades em nosso meio!

Por isso pense muito bem da próxima vez que ver um cãozinho abandonado na rua, ao virar o rosto, como muitos viraram na estrada de Jericó, você pode estar deixando uma história escondida  para trás, e se recusando a entrar em uma guerra que acontece todo dia, nas ruas, vielas e becos em geral, a guerra entre o bem e o mal, esse é o bom combate que temos que combater, as batalhas que temos que tomar partido, porque quando não escolhemos lutar, já estamos escolhendo um lado.

A morte da orelha é uma sujeira social, uma falha de caráter sistêmica que não pode ser varrida mais uma vez pra debaixo do tapete, o que tem acontecido nos últimos dias é um espelho de nossa alma  e que a cada dia que passa se transforma no retrato de Dorian Gray.


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